Dança Maria
Maria, sempre foi uma criança viçosa, de cabelos castanhos e pele alva, podia-se dizer que era uma linda menina. A vó a admirava por ser de ser uma de suas netas mais bela, pois era como ela dizia: gorda e bonita. A pequena infante era de família de origem humilde, e fora criada com seus irmãos somente pela mãe. A matriarca por usa vez, era uma mulher de personalidade forte e um tanto quanto superprotetora. O que não deixava de ser uma característica da sua geração, que fora moldada para cuidar da sua prole, de forma que se tornassem pessoas honestas e de bem. Haviam algumas coisas em sua casa que eram essências: comida, proteção e televisão.
Ah! Sim, a televisão aquela caixinha ultramoderna, portátil de cor amarela de uma marca famosa, que era a alegria da casa. Foi ali naquele televisor que Maria, assistiu pela primeira vez, escondido de sua mãe um filme de adulto. E mesmo ela não enxergando as cores, pois a tv era preto e branco, ela experimentou viajar para um outro mundo, muito além das suas bonecas.
Scarlet O’Hara, a protagonista do dito filme censurável, para menores, era uma mulher forte, dona de si. E lembrava a traços da sua mãe. Eram mulheres que ia à luta e conquistava o que lhes era de direito. A beleza daquela história ficou gravada na memória de Maria, que a carregou no coração pela vida. Para ela uma reles mortal, não era fácil ser a Scarlet, mas mesmo assim seguia seu rumo sonhando e esperando o dia em que seria a moça bonita de cintura fina, cobiçada pelos mocinhos.
Na espera da sua vida acontecer, sua mãe lhe presenteou com uma enciclopédia. De origem francesa, capa azul, com letras delicadas gravadas a ouro, segundo dizia o vendedor. E realmente aquele era o tesouro dela, pois naqueles livros de letras pequenas, Maria conheceu o mundo, viveu a história, respirou e suspirou arte. Aquela coleção de livros se tornou parte do seu dia a dia e de certa forma uma parte da sua essência e do que ela viria a se tornar na vida adulta. Enquanto muitas meninas da sua idade gostavam de ler Poliana Moça, ela lia a enciclopédia.
Certo dia passeando nas ruas da cidade em que morava, viu meninas alegres e sorridentes vestidas de colant e sapatilhas cor de rosa, saindo de uma antiga casa, cujo a qual ela nunca haverá notado. De dentro do cassarão saiam notas finas e delicadas de um piano que lançava notas musicais rumo aos seus ouvidos. Então, ela entendeu o porquê daquelas menininhas serem tão felizes. A música que vinha das teclas do instrumento, a conduziam de forma faceira e delicada a um novo mundo. A sua enciclopédia, havia lhe contado histórias sobre bailarinas. Mas, nunca conseguirá descrever tal sentimento, que brotava no coração dela. Um misto de admiração e porque não dizer de amor, ao recém apresentado, ballet. De alguma maneira aquele ambiente, era como uma volta ao lar. Algo tão familiar que chegava a ser assustador. Daquele dia em diante não sonhava mais, em somente ter as formas da Scarlet. Agora a pequena menina rechonchuda tinha mais um sonho. O de dançar livre, flutuando e rodopiando nas pontas dos pés.
Com o passar dos anos, ela foi deixando a infância para traz e começou a experimentar a adolescência. A transformação do corpo, os hormônios explodindo em forma de espinhas no rosto, lhe trouxeram novas sensações. As emoções sentidas e vividas por ela, não eram muito diferentes das demais mocinhas da sua idade. No entanto, cada pessoa reage de forma diferente, as adversidades da vida. Ela se sentia, solitária. O verdadeiro peixe, fora da água.
Conduzida pelo medo para esse novo mundo, Maria se aprisionou. Seu cárcere não era feito de muros ou grades. Na sua cela invisível, construída por ela mesma, guardou a sua verdadeira essência. Abandonou a enciclopédia, deixando-a empoeirada num canto da casa, esquecida e abandonada. Se escondendo nas sombras do que um dia fora. Certa que isso a salvaria dos olhares maldosos e julgadores que a cercavam. Que ditavam incansavelmente as regras de como ser, agir e pensar. De como deveria ser o formato do seu corpo, pois comer demais era feio ou simplesmente errado. Coisas de gente relaxada, sem asseio diziam a ela. E criou um novo mundo, pois, com a chegada da flor da idade, não havia conquistado a silhueta tão sonhada da sua heroína de infância.
Maria tinha a chave do calabouço, em que se enclausurou. Mas ela não se importava de ficar dentro da sua cela, pois afinal era assim que se protegia de tudo que a entristecia. E porque não dizer dela mesma. Desse modo podia ficar longe da necessidade de se encaixar nos modelos, de uma sociedade narcisista, que persistia em tentar transforma-la em um deles. E assim ela cresceu se esgueirando pelas paredes, entre as grades da prisão, trancando cada cela que se abria, dia após dia. Tinha a certeza de que era merecedora de tal castigo e que ali era o seu devido lugar, longe de tudo e de todos. Em pequenas caixas lacrou com cadeados as sapatilhas cor de rosa, a cintura fina da Scarlet e o amor que sentia pela arte.. Que julgara ser a única forma de liberdade possível, para almas atormentadas. Com o tempo, aprendeu que o mundo não era feito para pessoas como ela, independente do quanto se esforçasse, e do quanto tentasse se encaixar nos ditos padrões habituais. Então, viveu como a princesa trancada na masmorra, cercada de dor, ressentimento e culpa.
Mas, como dizem, não há dor que perdure e nem mal que sempre dure e com a chegada da maturidade veio algumas respostas as perguntas jamais pronunciadas. Trazendo a ela a revelação de que ser ela mesmo era normal. E que esse podia ser um dos grandes segredos da vida na busca da felicidade. Viu que as cores, as formas, os sonhos eram únicos em cada um de nós, e não havia necessidade de padroniza-los. Era tempo de romper as fechaduras, e se libertar. Finalmente ela podia ser e agir diferente das Barbies, de pernas longas e braços esguios. Bonecas criadas pea cultura americana na década de 50, para estimular o famoso “American Dream”. Em que as mulheres eram vistas como produtos feitos em escala numa fábrica de produção em massa. Donas de casa dedicadas, mães amorosas e esposas obedientes, verdadeiros modelos de perfeição. Militantes da boa moral e dos bons costumes.
Entendeu que havia um mundo era feito de contornos e medidas, e de que elas não eram iguais. Sendo assim, descobriu que a senha para abrir a sua prisão se resumia em uma única palavra: respeito.
Viu que o mundo continuava girando indiferente da sua aparência, classe social, religião ou cultura. Que podia ser ao mesmo tempo“ A Bela e a Fera” da história, ser a sereia curiosa dos cabelos vermelhos ou a moça do baile que perde o sapato na saída. Mas, ela não desejava perder os sapatinhos na escadaria do castelo, pois tinha trabalhado duro para compra-los e não desejava deixá-los para trás. Acima de tudo descobriu que não estava só, que não era a única que havia sido apontada pela sua aparência, seu jeito de agir e de pensar. E que sim, precisava ser não a mocinha indefesa, mas sim precisava uma guerreira e lutar contra as forças do mal. Defendendo-se das rainhas malvadas. Que insistiam em uniformizar o universo feminino, criando uma cultura de culto a uma beleza inatingível e que no final de contas nem lhe parecia tão belo assim.
Compreendeu que a herança que deveria deixar não só para a sua filha como para as para as gerações futuras, era um mundo, sem muros a serem escalados ou fronteiras para atravessar. Tinha a certeza de que merecia ser valorizada como mãe, trabalhadora, intelectual e mulher. Não queria mais ter só deveres, almejava direitos, dentre eles o de andar nas ruas de cabeça erguida e sem medo de ser atacada fisicamente, de forma verbal ou pelos olhares de reprovação. Não planejava ter direitos iguais, pois tinha certeza que éramos semelhantes, mas não iguais. Afinal nosso corpo é mais frágil, somos mais emotivas e sensíveis o que não nos fazem menos capazes ou mais fortes, apenas nos torna mais sentimentais. Enfim, Maria se libertou, abriu as caixinhas de sonhos que havia guardado, jogou fora os que não lhe agradavam mais ou não faziam sentido. Arrumou sua amada enciclopédia num lugar no aconchego da casa. Tornou-se a sua maneira a mocinha do seu próprio filme. Encontrou no seu coração um lugar para guardar a sua dor, pois ela a trouxera até aqui e lhe ensinará a lutar. Deixou-se ser observada pela multidão. Comprou sapatilhas de cetim cor de rosa e aprendeu a dançar, feliz na ponta dos pés.
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